quinta-feira, 9 de outubro de 2008

O FILHO ESPREZADO

ABEL – O FILHO DESPREZADO
EDUARDO P. F. NETTO

Braz, estou grávida.
O que é isso mulher, você não para de ter filhos? Até parece “devota de São Bento, é um filho fora e outro dentro”.
Você também não me deixa dormir em paz. Vira pra lá,vira pra cá e vapt-vupt.
Porquê não toma pílulas para evitar?
Remédio custa dinheiro e você nunca me dá algum. Sempre que peço você reclama.
Han, han, você gosta mesmo é de engravidar, isso é que è; gosta mesmo é de se ver como tivesse com uma melancia na barriga.
É, mais dessa vez eu não queria mesmo.
Procure aquela D. Severina Parteira peça para ela um remédio para abortar.
Isso é pecado Braz.
Então deixa vir, será mais um par de braços forte para a lavoura.
Vou pensar.
Tá bem.
Elsa era uma cabocla forte, bonita, os cabelos e olhos negros, uma boca bem alinhada, cintura acentuada, mulher para homem nenhum botar defeito. O marido era também um caboclo forte, os cabelos crespos, a testa alta, os olhos castanhos, a pela morena curtida pelo sol do nordeste; mesmo antes de casar sentia uma forte atração por Elsa, com o casamento deu-se a explosão de seus desejos e já com mais de vinte anos de casados esse desejo não arrefecera.
Vinha entrando de porta a dentro à casa do Braz, quando ouvi o casal conversando. Parei e fiquei a escutar para não interrompê-los. Por fim ao entrar à sala:
Jurandir, meu amigo, preciso de seus conselhos.
O que houve desta vez, Elsa?
Engravidei mais uma vez e não quero esse filho. Já tomei vários remédios que a parteira fez para abortá-lo, mas agora não fez efeito.
Porquê você me pede conselhos se não vai segui-lo? Você sabe que sou contrário a esse tipo de coisa. Filho é dádiva de Deus, se você renega essa dádiva o que pode esperar dessa vida?
Elsa, emburrada tratou de mudar o rumo da conversa.
Três meses após essa conversa nasceu Abel com a cabeça e as pernas atrofiadas, o casal veio me procurar. com o bebê nos braços. Era uma figura muita feia. Fiquei penalizado.
Que é que faço com isso, você diz que filho é dádiva de Deus isso lá é dádiva de Deus?
Minha amiga, não esqueça que você fez o que pôde para abortá-lo, os remédios que tomou com certeza provocaram o que você chama de isso. Agora é tratar de carregar essa cruz e cuidar muito bem dela.
Você tá doido Jura, você acha mesmo que vou carregar esse fardo?
E o que você vai fazer?
Se não conseguir quem fique com ele, vou colocá-lo numa caixa e jogá-lo no rio; quem sabe alguém poderá encontrá-lo?
Minha amiga, isso é terrível. Você vai se enterrando cada vez mais na iniqüidade, não faça uma coisa dessa. Você plantou uma má semente, terá que colher seus frutos, é a lei de Deus.
Lei de Deus ou não preciso me desfazer deste fruto..
Não faça nada por enquanto, vou ver se consigo alguma alma caridosa que possa ficar com ele..
Meus amigos saíram um tanto decepcionados com o que lhes falei.
Lembrei-me que Elsa tinha uma irmã rica e solteira em São Paulo,
Amália, a irmã, trabalha ou trabalhava como voluntária em algumas entidades filantrópicas. Liguei para ela, ficou de vir até nós para conhecer o Abel.
Uma semana após ela surgiu de surpresa em minha casa.
Então Jura vamos lá ver nosso bebê?
Fomos à casa de nossos amigos, não os encontramos, àquela hora estavam
todos na lavoura. Entramos, jogado num canto, peladinho, coberto apenas um com trapo velho lá estava. Abel, magrinho, a cabeça descomunal, agitou os bracinhos e a cabeça ao nos ver. Amália, lágrimas a lhe escorrer pela face, apanhou-o compadecida, enrolou-o numa toalha, colocou-o num sofá e foi preparar um banho. Estava todo sujo de cocô. Deu-lhe o banho, procurou sem sucesso alguma roupa. Tirou dinheiro da bolsa e pediu-me para ir comprar fraldas, roupas, artigos de higiene e um carrinho de bebê.Ao voltar encontrei-a numa cadeira de balanço cantando uma cantiga de ninar com Abel no colo.
Dezoito horas, o sol cansado de sua milenar trajetória diária deitava-se além do horizonte. Espalhava sua cabeleira pintando com suas cores as nuvens passageiras. Pasmado, da varanda da casa olhava aquele espetáculo de rara beleza.
Meus amigos voltavam da lavoura, ao me verem apressaram os passos. Os filhos se espalharam pelos fundos da casa.
Ó, até que enfim você apareceu reclamou Elsa.
O que te traz aqui, Jura? Perguntou Braz.
Tenho uma surpresa para vocês, vamos entrar,
Na sala Amália ninava o bebê todo vestidinho e perfumado;num lado numa pequena mesa a mamadeira vazia no outro um carrinho de bebê com alguns bibelôs..
Surpreso o casal cumprimentou alegremente a visitante. Evitaram falar sobre o bebê.
Três dias após com os documentos legais de adoção Amália voltou com ele para São Paulo
Quinze anos se passaram. Abel, graças ao empenho e amor da tia superara um tanto suas deficiência, era um excelente aluno e exímio violinista. Cnco anos de prática com o instrumento sob a direção de famoso professor tornou-se um violinista de renome. Viajava constantemente dando consertos por todo o mundo. Estava rico. A mãe adotiva o acompanhava.
Dez anos se passaram, um dia Amália recebe uma carta desesperada.
Amália, estamos arruinados e doentes, os filhos todos não suportando as privações debandaram. Nem sei por onde andam. Por favor, nos ajude.
Filho leia esta carta.
Abel lê a carta.
De quem é?
Amália passa a lhe contar quem é Braz, o signatário da carta.
Ó mãe porquê não me contou isso antes?
Tive medo de suas reações, afinal eles lhe desprezaram impiedosamente; mas numa tal situação acho que devemos perdoa-los.
Vamos lá mãe, quero conhecer a abraçar minha verdadeira mãe e meu pai, mas não precisa ter qualquer tipo de receio a senhora será a mãe a quem sempre amarei.
No dia seguinte à chegada dos dois fomos à fazenda dos amigos. Era uma desolação. A casa antes tão bonita parecia abandonada. A lavoura e o rio secos. Uma desolação total. O encontro de Abel com seus pais foi comovente. Elsa abraçada com ele chorava e pedia perdão pelo desprezo que lhe votara. O pai também chorava arrependido.
Eu e Amália ao lado observávamos comovidos essa cena de arrependimento dos pais e de perdão do filho.
Trinta dias durou a permanência de Abel e sua mãe adotiva na cidade. A casa dos pais foi restaurada, um poço artesiano foi aberto e a água voltou a molhar aquela terra.
Impossibilitado para o trabalho pesado Braz agora apenas supervisionava os trabalhadores e Elsa limitava-se aos afazeres domésticos.
Abel enviava mensalmente uma pensão aos pais.
Naquele tempo eu era pregador e orientador de certa entidade religiosa, mas com a idade minhas atividades foram se tornando cada vez mais escassas até que por fim fui aposentado com uma remuneração insuficiente.
Numa das visitas que Abel, como de costume, fazia a seus pais visitou-me também e apercebeu-se que eu estava envelhecido, alquebrado e sem condições de trabalhar; mandou construir uma casa ao lado da casa da fazenda de seus pais e me instalou nela, onde também passei a fazer refeições.
Sempre nos reuníamos para jogar dominó, mas lá numa noite de lua cheia em que o casal estava desejando fazer outro tipo de jogo, sem algo para fazer sentei-me a escrever essas lembranças.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

A MORE DO AVARENTO



A MORTE DO AVARENTO

A enfermaria do hospital púbico estava lotada, o Comendador Natércio giritava e reclamava com um câncer bastante avançado achava-se com direito a uma atenção especial dos funcionários, mas o pronto socorro tinha por norma o atendimento em ordem de entrada. Deram-lhe uma injeção para adormecer.
O Comendador era um avarento convicto, a miserabilidade era sua marca registrada. O convênio médico que pagava era dos piores e assim mesmo o plano mais barato, não tinha direito a uma assistência adequada às suas necessidades.
Baixnho, barrigudo, careca. Cerca de sessenta anos, os olhos grandes salientes, o nariz aquilino redondo, os lábios finos e unidos, a perfeita figura do tipo avarento, orgulhoso e despótico. Era agiota, os juros que praticava eram os mais altos da localidade, o infeliz que lhe caísse às mãos se não conseguisse . pagar em dia seu empréstimo estaria perdido, um dia que fosse de atraso e lá o coitado veria sua dívida multiplicada sem dó nem piedade..
Tipo solitário seu maior prazer era olhar sua coleção de cédulas que guardava em local secreto, não punha no bancos, que a seu ver roubavam seu rico dinheirinho com a cobrança de tudo quanto eram despesas. Todas as noites, antes de dormir abria a caixa de madeira em que guardava o dinheiro e contava e recontava inúmeras vezes. Ao encerrar seu expediente diário no escritório que mais parecia um chiqueiro de tão sujo e desordenado recontava a receita do dia; as notas mais altas chegava a passar no rosto com um sentimento de bem-aventurança. Amava seu dinheiro.
Na enfermaria os médicos e enfermeiros passavam ao largo sem lhe dar a mínima atenção, era um paciente indesejado, lá para meia noite foi levado para a UTI; Os médicos abriram e simplesmente tornaram a fechar seu corpo. Os órgãos internos estavam todos comprometidos.
Quem tivesse a possibilidade de “ver” veria rondando seu leito a figura de um ser do astral inferior. Aguardava a hora de levar aquela alma às profundezas do inferno.
Sua alma foi recepcionada festivamente por uma legião de entidades diabólicas, mas não conseguiram segurá-la. Essa alma apegada, durante muito tempo foi vista cumprindo sua rotina noturna de contagem de dinheiro. Quem chegasse à sua casa de pronto era assaltado por um grupo de diabinhos que tratavam de afastar qualquer interessado em salvar o comendador. Aquela alma estaria perdida por muito tempo se...

Cap. 2º

D. Albertina, viúva idosa entrara a serviço do comendador ainda jovem e casada. Após a morte do marido passou a se interessar pela herança do patrão, tentando, inutilmente conquistar seu amor. Seja por vício ou por manter viva sua esperança, de conquistar o perdulário patrão, continuou até o fim a agüentar suas rabujices. O fato é que após a morte dele continuou a viver na casa, agora na esperança de descobrir o esconderijo do dinheiro que sabia estar guardado em algum lugar secreto, mas por mais que procurasse, que vasculhasse não encontrava. Cada vez que chegava perto do tesouro entidades do baixo astral tratavam de afastá-la de alguma forma e assim a alma do finado ia passando o tempo apegado ao seu tesouro.
Cansada de procurar inutilmente o tesouro, a viúva foi visitar um casal amigo que se dedicava às práticas espirituais. O casal, bem intencionado, concordou em fazer uma sessão especial na condição de que o dinheiro encontrado seria doado inteiramente a uma casa de caridade.
Uma vela, um bastão de incenso e um copo com água sobre uma mesa pequena forrada com uma toalha branca. Uma oração, e quase que de imediato a consulente vai ao chão se debatendo e gritando...
_ Não, não vocês não vão me tirar essa alma. Essa alma é minha, ninguém vai tirá-la de mim. A entidade diabólica retorcia-se pelo chão e continuava a reclamar.
O casal intensificou suas orações invocando seus guias espirituais que se encarregaram de retira-la. A viúva, sem saber o que havia acontecido levantou-se assustada.
_ Minha irmã, falou a vidente, a alma do comendador estava presa por uma entidade do baixo astral que com suas legiões impediam a aproximação de qualquer pessoa ao local em que se encontra escondido o tesouro. Enquanto o finado não se desapegar daquele dinheiro sua alma vai continuar presa e impedida de se elevar aos planos mais elevados do mundo espiritual.
_ O que fazer para que o comendador compreenda que afinal aquele dinheiro já não lhe serve mais para nada?
Dando continuidade à sessão invocou-se a alma do comendador. A muito custo foi trazida pelos guias espirituais, incorporando-se em D. Júlia, debatia-se e reclamava que não queria ficar ali, que queriam roubar seu rico dinheirinho.
Sr Marcus, o dono da casa, bastante experiente nessas questões, passou a falar com a alma do comendador:
_ Meu irmão você não pode mais usar esse dinheiro. Não vê que está preso nesse lugar? Você só poderá sair daí depois que soltar esse dinheiro.
_ Não vou soltar coisa nenhuma, esse dinheiro é meu.
_ O que é que você vai fazer com ele?
_ Isso é problema meu.
_ Você não percebe que esse dinheiro não lhe serve mais para nada?
_ Não vou dar meu dinheiro para ninguém, pa a a ra ninguém; viu, ninguém!
Na impossibilidade de convencer a alma do finado solicitou-se ao mentor espiritual que a levasse para ser orientada num plano mais elevado.
O mentor indicou o local exato em que se encontrava o dinheiro, mas orientou à viúva sobre os perigos a que estava sujeita para retirá-lo de lá, lembrou-lhe também de seu compromisso de entregar o tesouro a uma casa de caridade, assim poderia ser ajudada naquela empreitada.

Cap. 3º

Albertina muniu-se de toda sua coragem e foi ao porão da casa em busca do tesouro; desceu escadaria, mas o local não tinha iluminação, era húmido e mau cheiroso. Foi buscar uma lanterna. Aos primeiros degraus a lanterna apagou, um calafrio lhe deixou toda arrepiada. Voltou à sala; a lanterna acendeu; apagou-a e foi tomar um pouco de água, voltando em seguida para a entrada do porão. Acendeu a lanterna, estava boa, mas aos primeiros degraus voltou a apagar e ela a sentir mais calafrios; retornou à sala. Compreendeu que entidades diabólicas estavam guardando o dinheiro..
_ Eu quero aquele dinheiro para mim, não vou desistir, nem dá-lo para ninguém, trabalhei feito escrava para aquele velho
sovina, preciso me compensar de tanto sacrifício.
Pegou um velho rosário, seu livro de missa, acendeu a lanterna e passou a descer a escada rezando um Padre Nosso, a lanterna continuou a acesa, mas ao se aproximar do dinheiro, a lanterna foi jogada ao chão e ela empurrada também caiu; apavorada levantou-se e subiu correndo a escada; uma gargalhada infernal acompanhou sua retirada.
Agitada, tremendo e com falta de ar ajoelhou-se e passou, amedrontada, a rezar o terço e a invocar todos os santos. Mais calma levantou-se, sentou-se na antiga poltrona do finado, levantou-se assustada, alguma coisa lhe espetou o traseiro.
Nessas alturas consciente de que não conseguiria ficar com o tesouro, nem com aquela casa assombrada do jetio que estava voltou à casa do sr. Marcus, pedindo ajuda.
Sr. Marcus e D. Júlia no dia seguinte foram à casa do finado. Antes de descer a escada do porão invocaram seus guias espirituais e desceram sozinhos. Albertina estava por demais apavorada para tentar mais aquela aventura. O casal desceu sem problemas; num dos cantos do porão uma caixa de madeira guardava o tesouro do comendador, era grande e muito pesada; abriram-na, lá estava uma enorme quantidade cédulas devidamente empilhadas em lotes de cincoenta e cem.. Levaram aos poucos para a sala sem qualquer interrupção de seus guardiões.
Aquela fortuna foi integralmente entregue a uma casa de caridade. Albertina passou a freqüentar assiduamente a casa do Sr. Marcus e lá um dia em plena sessão manifesou-se a alma do comendador. Tinha vindo agradecer a caridade que lhe fizeram. Agora estava feliz e livre de cobiça e apegos.

F I M






quarta-feira, 17 de setembro de 2008

REFLEXÕES

REFLEXÕES

Não dá mais para acreditar que esse universo é obra de puro acaso.
Nada se cria do nada.
Este universo tão bem organizado, com leis tão bem definidas. Os ciclos de dias e noites, as estações do ano, as diversas eras, tudo tão bem estruturado e que só nós, humanos teimamos em subverter tudo.
Os reinos a natureza: mineral, vegetal, animal, humano; cada qual com seu sistema próprio de vida, alimentação, procriação e evolução. Tudo isso me faz crer num Poder Criador, Conservador e Destruidor. Tudo que nasce, cresce, desenvolve-se e por fim morre.
A grande incógnita é: e após a destruição, e após a morte?
No reino humano com a morte o corpo físico e enterrado, seus componentes voltam à natureza, mas qual o destino dos 21 gramos (a vida) essa energia invisível que ocupou nosso corpo enquanto aqui estivemos?
A busca de respostas a essa questão deixo a critério de cada um(a).
Deixo-lhes então algumas perguntas :

VOCÊ CRÊ NUMA VIDA APÓS A MORTE?

COMO VOCÊ VÊ SUA VIDA DAQUI A V INTE OU TRINTA ANOS?

AFINAL, A SEU VER, QUAL A FINALIDADE DA VIDA HUMANA?

ALGUMA COISA PARA VOCÊ PENSAR

Todas as coisas são precedidas pela mente, guiadas pela mente e criadas pela mente. Tudo o que somos hoje é resultado do que temos penado. O que pensamos hoje é o que seremos amanhã; nossa ida é uma criação da nossa mente.SE um homem fala ou age com uma mente impura, o sofrimento o acompanha tão de perto como a roda segue a pata do boi que puxa o carro (Dhammapada - caminho da Lei)

A mente pode transformar o inferno em céu, ou o céu em inferno ( Milton- 1808-74)
O cativeiro ou a liberdade do homem dependem do estado de sua mente (Provérbio Sânscrito)


domingo, 31 de agosto de 2008

ANASTÁCIO- UM BURRO INTEIGENTE

ANASTÁCIO= UM BURRO INTELIGENTE

Aplausos, gritos e assobios marcaram o fim do espetáculo.
A ultima apresentação da noite, como de costume fora dada por um burrico de pouco mais de metro e meio de altura adquirido anos antes pelo Circo Alegria, antes em franca decadência
Em verdade era um animal impar, as coisas que fazia deixava a todos desconfiados sobre sua natureza animal; era mesmo um animal ou algum humano fantasiado? As quatro operações executava mais rapidamente que algum espectador convidado, cujo nome ele soletrava apontando as letras num quadro colocado ao chão; se alguém pedia para localizar um determinado objeto ele saía procurando e ao encontrar balançava a cabeça e zurrava. Muitas outras proezas fazia o pequeno animal.
Contavam-se as estórias mais loucas acerca de sua
natureza; a mais corrente dizia o seguinte:
Um cidadão já entrado em anos, conhecido como Comendador Pedro sentado à sombra de generosa árvore meditava sobre a interdependência e o carma. Absorto, foi desviado do seu mister pelo zurrar de um burro que se aproximava de uma fêmea no cio, com óbvias intenções. Ao mesmo tempo o comendador, dotado de extraordinários poderes ocultos "sentiu " que pairando na área, vagava a alma de seu amigo e mestre Raul, recém falecido. Essa alma estava à procura de oportunidade para reencarnar e assim continuar a missão de orientar os mais novos, na sabedoria milenar de seus ancestrais. O comendador se alvoroçou todo diante da possibilidade do amigo reencarnar como um burrinho. Nesse quase desespero viu a alguma distância uma jovem que estendia roupas no gramado; levantou-se correu para ela, jogou-a ao chão, não havia tempo para explicações, tentou fazer sexo, a fim de atrair a alma do amigo para reencarnar como seu filho.
A moça gritou, debateu-se e por fim saiu gritando nas carreiras para casa, perseguida pelo referido.
Acudida pela mãe a jovem contou-lhe o ocorrido.
A mãe indignada brigou com ela, bateu-lhe e por fim
mandou-a procurar o comendador e se entregar a ele, pois seria uma honra muito grande para a jovem ter um filho daquele cidadão.
O comendador que se aproximava, ouvindo as palavras da
mãe, balançou negativamente a cabeça.
_ É tarde, os animais já consumaram o cruzamento.
Desconsolado voltou onde estava a jumenta e levou-a para sua mansão, onde foi criada com toda deferência, afinal era a alma de seu amigo Raul que nela iria reencarnar.
Na época apropriada deu à luz o lindo rebento a quem deu o nome de Anastácio.
Desde seu nascimento o animal se revelou fora do comum; demonstrava uma sabedoria extraordinária.
Lá um dia surgiu o amigo Joaquim em visita ao comendador que encantado com as habilidades do muar e de seu potencial financeiro tratou de comprá-lo.
A venda daquele animal foi cercada de grandes dificuldades; Anastácio negava-se a deixar a mansão, batia as patas, deu coices, saiu em desabalada carreira pelo campo, escondeu-se no mato e até tentou suicidar-se, mas por fim após muitas peripécias foi colocado numa jaula. O bicho zurrava, batia as patas e até lágrimas viram escorrer de seus olhos. Chegou por fim ao velho continente. Joaquim de imediato procurou a quem vendê-lo.
Na época apenas um circo mambembe estava atuando na área e Joaquim precisava urgentemente de se desfazer do animal, já estava sem dinheiro. Entrou em contato com o proprietário que, apesar de ficar encantado com a possibilidade de levantar o circo, em franca decadência, não tinha dinheiro para comprá-lo.
Acertaram uma sociedade e por fim Anastácio passou a ser a estrela maior do circo, atraindo a cada dia maior número de espectadores.
Em verdade não foi fácil "convencer" o quadrúpede a
“colaborar”, mas alguns corretivos e um tratamento diferenciado, transformaram-no no mais célebre espécime de sua raça, levando muita alegria para uns, dúvidas para outros e muito lucro para o circo. Isso é o que se contava causando polêmica entre as diversas correntes religiosas. Umas concordavam com a possibilidade de, como castigo, uma alma humana reencarnar como animal, outras negando essa possibilidade alegando que por pior que fosse a alma sempre tem alguma evolução, não pode regridir.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

LONGEVIDADE INTOLERÁVEL

LONGEVIDADE INTOLERÁVEL

Dona Virgulina era uma senhora bastante idosa, riquíssima, mas totalmente intolerável, verdadeira megera.
O filho mais velho, desempregado, casado e com dois filhos vivia praticamente de favor em sua casa, aturando diariamente as impertinências da velha .Era ele, em realidade uma exceção na família. Tipo bom e trabalhador, estava azarado, por mais que procurasse não encontrava emprego e assim vivia suportando calado a humilhação a que a mãe submetia sua família.
_Você é um imprestável, não se mexe para nada, sua mulher é uma toupeira, porque não vão embora de uma vez desta casa? Ainda por cima esses meninos desobedientes e barulhentos. Me deixem em paz de uma vez! Era a cantilena diária da velha..
Os demais parentes, filhos, netos, sobrinhos etc. só a visitavam uma vez por ano em seu aniversário, mas era sempre a mesma cantilena:
_ Que é que vocês vieram fazer aqui? Reclamava a velhota.
_Vocês não gostam de mim, só querem mesmo me ver morta para passar a mão no meu dinheiro. São um bando de urubus agourentos. Vão embora!
A velhota tinha razão. Seus parentes eram um bando de vadios que estavam apenas aguardando a hora da “liberdade”, o que se daria, pensavam eles, com a morte da velha. que era entretanto muito forte e tinha uma saúde de ferro. Já com noventa anos não parava. Era da cozinha para a sala; da sala para o quintal; subia e descia escadas como qualquer moleque, para profundo desgosto dos parentes..
Lá um dia, um dos parentes que dia a dia mais de endividava, contando com a morte da velha de uma hora para outra, incomodado com sua longevidade reuniu os demais e combinaram antecipar a passagem da velhota desta, para a melhor.
Como estava próximo a seu nonagésimo sexto aniversário planejaram comemorá-lo adequadamente.
Um enorme bolo de aniversário com duas velas indicando a idade da aniversariante jazia majestosamente à mesa devidamente decorada para a ocasião.
_ Vocês são uns perdulários, para que essa ostentação se não gostam de mim?
_Não, não é verdade, todos lhe amamos, falou um dos parentes.
_ É verdade, é verdade, todos lhe amamos, afirmaram os demais em coro.
Lá para às tantas alguém lembrou que era hora de partir o bolo.
Reuniram-se em torno da mesa. A velha próxima ao bolo e os demais mais ou menos afastados. Foram acesas as velinhas.
_Parabéns pra você, nessa data querida....
Uma terrível explosão abalou todo o prédio.
Os bombeiros foram chamados; apagadas as chamas iniciou-se a procura de sobreviventes.
_ Ai, ai, vocês são uns miseráveis, vocês não gostam de mim, só querem é meu dinheiro, urubus agourentos .... ouvia-se por baixo dos escombros.
Só a Virgulina escapou da explosão..

sábado, 9 de agosto de 2008

Brunehilda-Um Vampiro Diferente

BRUNEHILDA
UM VAMPIRO DIFERENTE
Cap. 1º
Era uma mulher terrivelmente bela. Cabelos e olhos negros, brilhantes, os lábios carnudos, com uma pintura quase roxa. Seu corpo extraordinariamente modelado movimentava-se em meneios sensuais , num vestido de cetim negro; decote bastante generoso, mantilha vermelha salpicada de pequenas estrelas prateadas. Uma tiara de ouro completava seu figurino
Um perfume de combinação especial de essências deixava enlouquecidos os homens daquela festa de debutantes, filhas de conhecidos figurões da sociedade, de uma cidade distante.
. Relanceando o olhar pelo salão encontrou um jovem adequado ás suas necessidades, dentro em pouco Alberto, totalmente subjugado, foi levado a seu castelo
No subterrâneo do castelo, um templo dedicado às entidades goéticas, em sua parede sul uma figura infernal dominava o ambiente. No centro do salão um pentagrama invertido rodeado de velas negras; um incenso mal cheiroso evolava de um fogareiro.
Brunehilda gritava imprecações e promessas de sexo com satã em troca da vitalidade de Alberto, que sentado num banquinho entre as pontas do pentagrama tudo assistia sem reação, totalmente impotente.
Cap. 2º
No dia seguinte na empresa em que Alberto trabalhava, estranharam sua prolongada ausência . Passaram-se três semanas; de sua residência e nada souberam informar.
Áureo um jovem colega de trabalho, estudioso das ciência ocultas, preocupado, domingo, deitou-se num divã e concentrou-se no amigo. Em poucos instantes lhe veio à visão o corpo de Alberto envolvido por enorme aranha cujas garras negras e peludas lhe sugavam violentamente a vitalidade. Viu também uma igreja com um relógio em todas as faces da torre, um cata-vento com um galo em cima e também uma estação ferroviária com o nome da aldeia. Sua visão mostrava agora a aranha a se retorcer e fincar mais suas garras no corpo do rapaz..
Áureo contou o caso a seus chefes que lhe deram uma semana de licença para tentar salvar o amigo.
Não foi difícil localizar o castelo; à sua chegada as portas abriram-se misteriosamente, caminhou pelo hall e intuitivamente foi em direção a um aposento à sua frente; a porta abriu-se também de forma misteriosa era a entrada do subterrâneo, continuou seguindo em frente. Uma cortina de veludo escarlate impediu-lhe a passagem; abriu-a e no centro do salão viu o amigo jogado ao chão, no meio de um círculo rodeado de velas pretas, o mesmo incenso fétido impregnava todo o ambiente. De pé, desafiante Brunehilda, numa voz melíflua chamava:
_ Venha, estava lhe esperando.
_ Mulher maldita, o que fazes?
_ Bem sabes o que faço, porque perguntas?
_. Venho pedir-te por esse rapaz.
_ Pedir? Ah, Ah, Ah, pedir! Você vem me pedir? .
_ Sim, venho pedir-te retrucou Áureo humildemente.
_ Pedes inutilmente. Investi muito nesse infeliz, não vou dispensá-lo sem mais nem menos.
_ Pede o que quiseres: dinheiro, ouro, qualquer coisa.
_ Ah, Ah, Ah, não banques o inocente, não preciso destas coisas., mas poderás consegui-lo.
_Como? Qual é o preço?
_ Tu o substituirás!
O coração de Áureo bateu aceleradamente, Não estava preparado para aquilo. Se aceitasse a troca para salvar o amigo, após sugado em toda vitalidade, seria jogado semi morto em qualquer beira de estrada.
"Prova de amor maior não há, que doar a vida pelo irmão", esse verso passou a lhe martelar a cabeça. Como eram bonitas aquelas palavras, mas quão cruéis naquela situação. Ele ainda jovem em fase de treinamento espiritual avançado de repente ter de fazer tal barganha com aquela mulher que lhe olhava zombeteiramente. A humanidade sairia perdendo com aquela troca. Alberto era um bom rapaz, mas teria de voltar ainda muitas vezes à terra para alcançar seu grau de espiritualidade. Alberto neste estágio de vida só pensava em gozar dos prazeres da vida.
_ Em que pensas? Achas o meu preço muito alto ? Deixarás morrer o teu amigo? Onde está o amor que tanto pregas?
Áureo estava meditativo, pensando sobre as conseqüências do que iria fazer, de repente levantou altivamente a cabeça e disse:
_ Muito bem, mulher cruel, aqui me tens despojado de qualquer indecisão. Toma-me em substituição à tua inocente vítima.
_ Aguarde um pouco!
Brunehilda voltou-se para o altar e em terríveis imprecações comunicou à sua entidade satânica o que iria fazer. Ao longe ouviu-se uma gargalhada debochada. Pronunciou uma invocação, apagou as velas, retirou alguns objetos rituais do círculo traçado com carvão, apagando-o em seguida.
Ao som de uma sineta surgiram alguns criados que levantaram Alberto. Deram-lhe uma beberagem e em pouco tempo o rapaz ficou consciente.
_Oh, onde estou? Áureo o que veio fazer aqui? Por que é que eu estou aqui?
Olhou à sua volta e se deparou com Brunehilda, mas não tinha a mínima idéia do que lhe acontecera. Havia também perdido a noção do tempo.
_ Áureo o que veio fazer aqui? - perguntou novamente.
_ Nada perguntes Alberto. Saia daqui.
Tirou algum dinheiro do bolso e deu ao amigo. Há um táxi esperando aí fora, volte imediatamente para sua casa. Um dia, talvez, saberás o que aconteceu.
Alberto se foi, Áureo ficou no castelo à disposição da megera..

Cap, 3º
No centro do círculo a nova vítima e a megera totalmente despidos; pronta
toda aquela satânica parafernália Brunehilda iniciou suas evocações às infernais entidades. Alguns momentos após estava como que possuída pelo demônio, soltava pelas narinas dilatadas uma fumaça sulfúrica, os olhos esbugalhados, injetados de sangue, como que a lhe saltar das órbitas dardejavam faíscas de fogo sobre a vítima. A bela e brilhante cabeleira agora totalmente desgrenhada, parecia espinhos enormes. Após alguns passos esquisitos de dança começou a dar voltas em torno do círculo onde Áureo consciente de tudo, aguardava o desfecho daquela cerimônia infernal. De pé olhando para o rapaz a megera riu triunfante e jogou-se sobre ele, procurando se ajustar perfeitamente ao seu corpo. Procurava unir todos os seus centros vitais com os do rapaz e assim nessa posição por força de formidáveis segredos sugar-lhe a vida.
Áureo aceitou humildemente a tudo aquilo entregando sua vitalidade em troca da vida do amigo. Por quantos dias teria que passar por aquele sofrimento até ter sido totalmente sugado, não tinha a menor idéia, mas estava consciente de que durante algum tempo teria que se entregar aquele sórdido ritual até que seu organismo não tivesse mais capacidade de recuperação.
Um grito de terror ecoou à distância. Uma ventania estranha fez tremular as chamas das velas, que por fim se apagaram. A megera ficou totalmente perturbada. Nunca fora interrompida assim em plena operação. Sobressaltou-se. O que viu deixou-a furiosa e aterrorizada. Um ser de elevada espiritualidade, com uma esplendorosa auréola dourada estava diante do círculo. Pulou assustada e caiu urrando, contorcendo-se desesperadamente.
_Mulher terrível, tua faina nefanda chegou ao fim! - falou-lhe a entidade.
_Não, não! Ó potências infernais, vinde socorrer tua serva. Ó Belzebu, ó entidades do mal. vinde acudir vossa escrava , não me abandonem!
Uma gargalhada de deboche foi desaparecendo ao longe.
_ Teus senhores nada podem agora fazer por ti. Volta ao limbo de onde viestes!
Assim dizendo a entidade apôs sua mão direita sobre a cabeça do vampiro
que contorcia-se desesperadamente.
_Não, não, tem piedade!
Como um balão de ar, a megera foi murchando aos poucos, até desaparecer totalmente.
_Meu filho, tu destes neste momento a maior prova de amor que uma pessoa pode dar neste mundo fenomênico.
_Será que estou morto? - pensou Áureo.
_ Não meu filho, não estás morto. Mas neste momento é que como que o estivesses,
seguirás agora comigo para um monastério secreto onde passarás a ter um treinamento mais avançado.
Áureo relutava.
_Meu emprego, minha família o que será dela?
_ “Deixe que os mortos enterrem seus mortos, vamos!
Dizem que durante muito tempo quem à noite passasse por aquele castelo ouvia os terríveis gemidos do vampiro.
F I M

domingo, 3 de agosto de 2008

O Elefante

O ELEFANTE
Eduardo P. F. Netto

_ Vovô, vovô, conta aquela história de como o senhor perdeu os marfins, pediu Ricardinho, o mais novo dos pequenos elefantes, xodó de Galhardo, o velho paquiderme.
_ Sim, vovô, conta, conta. Pediram os outros dois netinhos que todas as noites se acomodavam ao lado do velho avô para ouvir suas histórias sempre repletas de suas mais variadas peripécias.
_ Não, não negava o velho, sem muita resistência. Por que é que vocês gostam de histórias tão tristes?
_ Conta, conta, conta! Insistiam os bebês elefantes.
_ Está bem, está bem, não precisam gritar não. E o velho mastodonte, limpando uma pequena lágrima que persistia em não cair, concordou em rememorar seus dias de fausto, mas também de grandes sofrimentos que passou em sua longa existência.
_ Muito jovem ainda eu era o maior animal da região, por isso fui levado para servir no palácio do Marajá. Em meu dorso carregava reis, rainhas, príncipes e princesas, desfilava pelas ruas todo enfeitado, meus marfins eram pintados com tinta de ouro, minha cabeça coberta com tecido ricamente ornamentado, o palanquin era uma verdadeira obra de arte. E eu desfilava garboso, orgulhoso balançando feliz a tromba para lá e para cá manifestando minha alegria e o orgulho que sentia por servir ao marajá. Era tratado como o rei dos animais. Vivia feliz.
_ E por que está assim agora?
_ Bem, lá um dia apareceu nas terras do marajá um meu parente maior e mais bonito que eu, o resultado é que terminaram me vendendo para outro potentado da região que não era tão rico e como eu dava muitas despesas terminou por me vender para um circo. Aí as coisas começaram a piorar. Obrigaram-me a custo de muitas espetadas que me deixavam sangrando, a dançar e a fazer piruetas, a me levantar, ora nas patas traseiras, ora nas dianteiras e assim passei cinco anos sofrendo cada vez que meu tratador inventava uma nova apresentação. Geralmente quando terminava minha apresentação a multidão aplaudia com entusiasmo, inconsciente do meu sofrimento, e o tratador sorria e agradecia feliz da vida, e quase morto de cansado voltava capengando para meu cercado.
Lá um dia resolvi dar um basta àquela situação humilhante, eu um animal nobre que teve em seu dorso reis e rainhas, sujeito agora a alegrar uma multidão que não tinha idéia do meu sofrimento para lhe proporcionar aqueles momentos de prazer. Passei a imaginar um meio de acabar de vez com aquilo tudo.
A semana inteira enquanto o circo era montado numa grande capital do país uma turma passou a desfilar pela cidade, mostrando suas atrações: a banda de música, os tigres, ursos, cavalos enormes, palhaços, bailarinas e eu carregando o miserável do tratador que vez ou outra me fofocava com seu ferrão para eu fazer uma graça qualquer. Os acrobatas demonstrava suas habilidades, os palhaços faziam graças e vez por outra gritavam:
HOJE TEM ESPETÁCULO;
TEM SIM SENHOR, gritavam os outros
O PAHAÇO O QUE É?
É LADRÃO DE MULHER
HÁ, HÁ, HÁ
Assim percorríamos os bairros da capital. Na volta estávamos todos muito cansados
Era uma semana de festas naquela capital, no sábado comemorava-se seu aniversário, o circo estava cheio. Eram aplausos e uma gritaria infernal, a cada apresentação dos artistas e dos animais. Por fim chegou a hora de minha esperada apresentação, estavam todos ansiosos por ver o elefante dançarino, conforme anunciavam.
O tratador à minha frente, tendo á mão seu instrumento de tortura, metido num traje ridículo, gesticulava feliz para a multidão.
A banda iniciou o dobrado com o qual eu fazia algumas piruetas, o povo gritava que queria ver o elefante dançar como fora anunciado pelos percursos nas ruas.
Chegou então o glorioso momento. A banda iniciou a tocar a valsa Danúbio Azul do grande compositor Strauss.
A multidão em silêncio aguardava a performance. No centro do picadeiro eu permanecia parado. O tratador me pedia para dançar, gritava, xingava e eu balançava a cabeça dizendo que não. A multidão gritava, o tratador enfurecia-se, mas não podia me espetar diante do povo e gritava e me ameaçava, e eu simplesmente balançava negativamente a cabeça. Num determinado momento ele passou a minha frente peguei-o com a tromba e balancei-o de um lado para outro, jogando-o finalmente para o alto. Já no solo, desmaiado passei por cima dele dei-lhe uma bela mijada e por fim aquela cagada, o povo gritava, aplaudia, julgava que fazia parte do espetáculo. Foi uma verdadeira apoteose.
Os elefantinhos rolavam de alegria.
_ Bem, um dos empregados do circo me atirou um dardo com substância tranqüilizante e em pouco tempo fui ao chão e arrastado para fora do picadeiro. A multidão gritava, queria mais.
Não voltei mais ao picadeiro, disseram que eu havia enlouquecido, mas que doido que nada, eu estava era cansado e aborrecido com tudo aquilo e resolvera me vingar. Diariamente me aplicavam o tranqüilizante. Um dia quando acordei estava sem meus marfins e abandonado numa floresta quase morto.
Um grupo de seres humanos me encontrou naquele estado e passou a cuidar de mim e logo recuperei minhas forças e por hoje já chega de histórias, vão , vão vão tratar de dormir seus moleques travessos.
O velho Galhardo rolou para um lado e passou também a dormir e sonhar.